cheers

morreu hoje uma amiga tua. conheciam-se há cerca de 7 anos, mas desde aí mantiveram uma amizade constante e bem disposta. uma amizade sobretudo de jantares e saídas e passagens de ano. lembraste-te especialmente dos jantares, de estares sentado com ela várias vezes à mesa. eram ambos adeptos de beber champagne durante as refeições. eram ambos adeptos de vinho e cigarros e bons restaurantes. gostavas da forma arrastada como ela dizia o teu nome. gostavas de forma como ela se mostrava sempre contente por te ver. de como se ria das tuas piadas. não era uma amiga intíma, mas era uma amiga com quem estavas várias vezes, mais vezes até do que outros amigos e amigas que poderias considerar mais chegados. só no último ano, já depois dela receber as más notícias - embora sem nunca saber quão más - jantaram várias vezes. no carnaval na bica do sapato. no lucca, pouco depois (ou pouco antes). num restaurante indiano, onde fizeram questão de ficar ao pé um do outro (ainda te lembras do péssimo gin tónico que beberam antes de jantar). nos santos populares, numa tasca da bica, onde tiveram horas em pé antes de arranjar mesa. em julho, num páteo em alcântara, e em setembro, no terraço do hotel do Bairro Alto. E, por fim, perto do Natal, onde ela te contou que tinha recebido notícias não muito boas - outra vez. é inevitável que a associes a bons momentos. foram sempre (ainda que mitigados por uma ou outra confidência - lembras-te dela a chorar no parque do estacionamento do Saldanha por causa de uma discussão completamente idiota durante o jantar). hoje no velório só pensavas que era por causa de pessoas como ela que os funerais irlandesdes fazem algum sentido. por isso, aqui vai: cheers, mais dear, wherever you are. and thank you. que tivéssemos feito mais vezes tchin-tchin.
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